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  • Writer's pictureGabriel Toueg

Morreu a maior traficante de bebês de todos os tempos – e eu com isso?

Updated: Apr 21

Saiu hoje, no UOL Notícias, a informação – que eu obtive de fonte anônima e confirmei nos canais oficiais e junto à família – da morte de Arlete Hilú, que foi a maior traficante de bebês de todos os tempos. A informação acabou repercutindo na imprensa.


A notícia já era, de longe, esperada – Arlete Hilú tinha quase 80 anos, não gozava de saúde impecável, não vivia cercada de amor e carinho. Ao contrário, vivia em uma casa de repouso que mais parecia uma fortaleza, onde era tão difícil para qualquer pessoa entrar quanto era para ela sair. Nem celular ela podia ter. Ela tinha zero contato com o mundo externo.


Um ano antes de morrer, foi internada em estado grave num hospital da região da casa de repouso. Os médicos chegaram a desenganar a mulher, mas ela resistiu e voltou ao asilo. Embora a família diga que ela tinha Alzheimer e que lhe faltava lucidez nos últimos anos de vida, eu posso afirmar sem medo de errar que ainda havia muita coerência no que ela dizia, tanto quanto naquilo que escolhia não dizer sobre o período no tráfico.


Mas… e eu com isso tudo?


Pesquiso o tráfico internacional de bebês brasileiros para adoção fora do país desde 2012. Enquanto eu era uma criança cercada de proteção e carinho, outras crianças, contemporâneas, um pouco mais jovens, eram raptadas, tiradas de famílias e levadas para outros países. Hoje, elas querem saber de onde vieram, quais as suas raízes.


Luto

Mesmo já esperada, a notícia da morte de Hilú não caiu fácil. Houve um quê de luto aqui, em mim. Hilú não foi a única operadora do esquema, mas era dele o nome mais forte. Se alguém tinha um panorama geral de tudo que acontecia e de todos os nomes envolvidos, esse alguém era ela. Levou as informações embora, cremadas em Piracicaba como ela.


Mas Arlete não estava sozinha. Ao menos 37 pessoas foram presas naquela época por envolvimento no tráfico de bebês para esta finalidade específica, a da adoção. Hoje, 12 anos de pesquisa depois, eu tenho mais de 3 dezenas de nomes de pessoas que "trabalharam" com ela.


Mesmo assim, há um luto.


Tentei por diversas formas me aproximar de Hilú. Quando ela reapareceu em público, em 2016, numa entrevista à Record, corri atrás de localizá-la. Ela estava no litoral de SC, mas muito mais eu não sabia. Talvez eu pudesse ter me dedicado mais a achá-la, mas o assunto naquela época não ocupava parte central da minha vida como hoje – é também o tema da minha dissertação de mestrado, que devo defender no fim do ano que vem.


Quando obtive a informação sobre o paradeiro dela, anos depois, uma informação exclusiva que muita gente queria ter, cerquei a mulher tanto quanto eu pude. Só não apelei à Justiça, como descobri que poderia, porque os recursos de um jornalista investigativo independente também são escassos.


No meio disso tudo, a morte dela veio a mim com uma carga de luto.


Para muita gente que eu conheci nesta jornada, entretanto, eu sei que a notícia vem como alívio; para outros, para fechar um ciclo; para alguns, como uma parede no fundo do beco sem saída da busca pelas próprias raízes. Consigo visualizar como se sentiu cada pessoa que eu conheci e que teve a vida e o destino alterados por Hilú.


Não acabou

É importante encarar como fato que o esquema de tráfico de bebês não morreu com ela. Certamente, até pela idade que tinha e pelo isolamento em que vivia, ela não estava mais envolvida. Mas em 2016, só oito anos atrás, ela mesma disse, naquela entrevista para a Record, que uma criança "havia caído" em seu "colo" para adoção por uma família "israelita". Quis dizer israelense, e sem querer confessou que de, alguma forma, seguia ativa. Ou, vai ver, só disse aquilo para ainda parecer relevante.


O fato é que adoções ilegais de bebês brasileiros por casais estrangeiros seguem ocorrendo. Não é necessariamente um crime, porque há sim, no Brasil, dispositivos legais para famílias de fora do país adotarem nossas crianças. Mas o caminho "fácil", embora caro, muito caro, ocorre na esteira de sequestros em maternidades, cooptação de famílias para entregar os filhos, ameaças e violências afins.


Acontece que, à diferença dos anos 1980, quando o grosso dos casos ocorreu, hoje temos como espalhar a informação de que adoção não é comércio. Não há mecanismo legal e regulamentado que cobre dezenas de milhares de dólares por um bebê. Não no Brasil, ao menos – e é importante que as famílias estrangeiras saibam disso.


Nos anos 1980, muitos argumentavam, provavelmente certos, que pagavam porque assim lhes fora dito que precisava ser: a burocracia brasileira era cara; os processos, demorados; os envolvidos, muitos; o serviço, personalizado a ponto de custar uma fortuna. No fim do dia, entretanto, a coisa era assim: famílias compravam seus filhos.


Hoje elas podem saber que isso não é legal. Espalhe a informação!


Não acabou (2)

Sigo pesquisando o assunto com afinco e dedicação como tenho feito desde 2012. Aprendo todos os dias, ouço relatos de fazer chorar, busco notícias da época e tento entender como a Justiça tratou os casos.


Por alguma reviravolta nessa história toda, de 2012 para cá cresceu a busca por narrativas de "true crime", o que também gera interesse pelo caso de Arlete Hilú. Muito bem, mas isso precisa ser feito de forma respeitosa e com responsabilidade.


Estou à disposição e feliz em guiar quem se interessa neste caminho.


Como sempre, meu apelo: se você conhece alguém que tenha nascido no Brasil e que foi adotado fora do país, fale comigo; se tem qualquer informação que possa acrescentar à pesquisa, por gentileza fale comigo.


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